Existe uma narrativa sobre Florianópolis que todo mundo conhece: praias, qualidade de vida, Jurerê, ostras, pôr do sol. É uma narrativa verdadeira e poderosa. Mas ela cobre apenas metade do que explica por que os imóveis na ilha valorizam de forma consistente há mais de uma década.
A outra metade tem menos apelo fotográfico. É feita de código, de dados, de faturamento e de salário médio. E ela importa tanto quanto a primeira para quem está tomando uma decisão de compra.
Um título que não é simbólico
Em 2 de setembro de 2024, o presidente da República sancionou a Lei Federal nº 14.955, que conferiu oficialmente a Florianópolis o título de Capital Nacional das Startups. Não foi uma homenagem de ocasião.
O município concentra a maior densidade de startups no país. A capital catarinense se destaca pelo ambiente favorável ao surgimento de negócios, reunindo cerca de 6,1 mil empresas de tecnologia e 38,4 mil colaboradores. Quanto à proporção de startups por habitantes, a cidade possui o indicador até dez vezes maior do que São Paulo. (Fonte: ACATE · ABStartups)
O Global Startup Ecosystem Report 2025 dedicou um capítulo inteiro à cidade, intitulado "Florianópolis: A Model for Mid-Sized Innovation Hubs", destacando que a contribuição do setor de tecnologia para o PIB coloca Florianópolis na liderança nacional entre as capitais brasileiras, com a tecnologia representando cerca de 25% da economia local. (Fonte: Startup Genome · Global Startup Ecosystem Report 2025)
Para entender o que isso significa na prática: tecnologia representa um quarto de toda a economia de uma cidade com 537 mil habitantes. Não existe nenhuma outra capital brasileira com esse perfil.
O que a tecnologia tem a ver com imóveis
A conexão entre ecossistema de startups e mercado imobiliário não é intuitiva, mas é direta.
As empresas de tecnologia atualmente empregam mais de 50 mil pessoas em cargos que pagam em média duas vezes mais do que setores tradicionais como o comércio e a construção civil. (Fonte: SCTI-SC)
Profissionais que ganham duas vezes a média do mercado têm capacidade de compra diferente. Eles não financiam o mesmo imóvel que o restante da população, compram à vista ou com entrada maior, acessam faixas de preço mais altas e exigem padrão construtivo elevado. Quando essa massa de compradores se concentra numa cidade, ela pressiona o mercado para cima de forma estrutural, não especulativa.
Esse ecossistema tecnológico atrai profissionais de alta renda e demanda crescente por imóveis modernos, bem localizados e adaptados ao estilo de vida urbano. Regiões como Trindade, Itacorubi e João Paulo se beneficiam desse movimento, por estarem próximas a universidades e polos tecnológicos. O reflexo é uma valorização consistente e a constante busca por imóveis residenciais e comerciais nessas áreas. (Fonte: Blog Diogo Fernando · FipeZAP 2025)
O João Paulo, por exemplo, registra m² médio de R$ 13.678 acima da média geral de Florianópolis, que está em R$ 12.519/m². Parte significativa dessa valorização vem da demanda de profissionais de tecnologia que escolhem o bairro pela proximidade com o Corporate Park, o Itacorubi e a SC-401.
A Celta e o que ela revela sobre o tempo longo
A limitação geográfica impediu a instalação de grandes indústrias e empurrou Florianópolis para a economia do conhecimento. A Celta, primeira incubadora de empresas de tecnologia do Brasil, nasceu na cidade em 1986. Quase quatro décadas depois, o setor de tecnologia responde por 25% do PIB municipal e emprega cerca de 38 mil pessoas. (Fonte: Correio Braziliense · IBGE)
Esse dado é fundamental para entender a natureza dessa valorização. O ecossistema tech de Floripa não surgiu do dia para a noite. Ele foi construído ao longo de quase 40 anos, com UFSC como âncora de talentos, ACATE como articulador do setor, dois parques tecnológicos, quatro centros de inovação e uma cultura de empreendedorismo que se retroalimenta. (Fonte: ACATE 2024)
Isso não é bolha. É infraestrutura econômica consolidada.
O novo comprador que o setor tech criou
O setor de TI na Capital soma 6.099 empresas que faturam anualmente R$ 12 bilhões e geram uma receita de quase R$ 100 milhões em ISS para a prefeitura, crescimento de 85% na arrecadação de ISS pelo setor de TI entre 2019 e 2023. (Fonte: SC Inova · Observatório ACATE 2024)
Esse faturamento cria um perfil de comprador que não existia em Floripa há 20 anos: o profissional tech de 30 a 45 anos, com renda elevada, que trabalha em home office ou modelo híbrido, valoriza qualidade de vida tanto quanto salário, e que escolhe a cidade como destino definitivo, não temporário.
Ele não quer o studio universitário de 36m². Ele quer o apartamento de 80m² com varanda, coworking no condomínio, academia e localização que elimine deslocamentos longos. É exatamente o produto que os novos lançamentos de Trindade, Itacorubi, João Paulo e Campeche estão entregando, e é por isso que esses bairros aparecem consistentemente nos rankings de valorização.
Entre os imóveis compactos, a Trindade registrou valorização de +28% em 2025, chegando a R$ 13.650/m². O Itacorubi também apareceu entre os destaques do período. (Fonte: Loft Q4 2025)
O efeito que poucos calculam: o evento como vitrine
Floripa sedia dois dos maiores eventos de inovação da América Latina: o Startup Summit e o RD Summit, este realizado pela RD Station, empresa que nasceu na cidade e cresceu para atender grandes corporações nacionais e internacionais. (Fonte: ACATE · Deolhonailha)
Cada edição desses eventos traz para a ilha milhares de profissionais, investidores e fundadores de outras cidades e países. Muitos chegam pela primeira vez. Uma fração desses visitantes volta para morar ou para comprar.
É o mesmo mecanismo que funciona com o turismo de verão, mas com um perfil diferente de comprador: alguém que veio para um evento de negócios, ficou impressionado com a cidade, e voltou para fechar contrato num lançamento.
Por que isso importa para quem está comprando
O mercado imobiliário de uma cidade é sustentado pela economia dela. Cidades com economias monodependentes: só turismo, só indústria, só serviço público, são mais vulneráveis a ciclos. Florianópolis tem uma configuração rara: turismo + tecnologia + serviços + universidade federal de ponta + ecossistema de startups consolidado.
Essa diversidade é o que torna a demanda por imóveis em Floripa resiliente. Quando o turismo oscila com a sazonalidade, a demanda tech não oscila junto. Quando a Selic sobe e comprador de renda média recua, o profissional tech com renda dobrada ainda compra.
É uma base econômica que protege o valor do patrimônio de formas que a análise superficial do mercado não captura.
Uma observação honesta
Ecossistema de startups robusto não é garantia de valorização imobiliária linear. Há bairros em Floripa que se beneficiam muito desse perfil econômico e há bairros cuja valorização depende de outros fatores. A localização dentro da cidade ainda importa muito.
O que o dado tech faz é reforçar o fundamento de longo prazo da cidade como um todo. Para o investidor que pensa em horizonte de 5 a 10 anos, esse fundamento é um argumento sólido.
Se você quer entender como esse cenário se aplica ao que está avaliando, posso ajudar a pensar com calma.
Cristian Thume — Corretor de Imóveis em Florianópolis CRECI/SC 74.589-F · @cristian.thume · cristianthume.com.br · WhatsApp: (48) 99154-5904
"O verdadeiro luxo é viver bem."
Fontes citadas: Lei Federal 14.955/2024, Global Startup Ecosystem Report 2025, ACATE, SCTI-SC, Loft Q4 2025, FipeZAP.