28 de maio de 2026

Quando um número chega com três dígitos e um sinal de mais na frente, ele faz duas coisas ao mesmo tempo: impressiona e desafia. Impressiona quem não questiona. Desafia quem sabe o que perguntar antes de acreditar.

O dado é real. No primeiro semestre de 2025, o Valor Geral de Vendas dos lançamentos em Florianópolis subiu 367%, consolidando a cidade como a principal referência nacional em novos empreendimentos entre as 12 capitais analisadas pela ABRAINC com base no GeoBrain. (Fonte: ABRAINC · GeoBrain · Agora Floripa · Out/2025)

Mas um número sozinho não é análise. É ponto de partida.

Primeiro: o que é VGV e por que importa

VGV: Valor Geral de Vendas, é a soma do valor potencial de todos os imóveis lançados num período, se todos fossem vendidos pelo preço de tabela. É o termômetro que o mercado usa para medir o volume financeiro de novos empreendimentos.

Não é faturamento realizado. Não é lucro. É o valor total na prateleira quando os empreendimentos chegam ao mercado. VGV alto significa que incorporadoras estão confiantes o suficiente para lançar produtos caros em volume relevante, e que há demanda suficiente para absorvê-los.

O crescimento de 367% no VGV de lançamentos não significa que Floripa faturou 4,67 vezes mais do que no primeiro semestre de 2024. Significa que o valor total dos empreendimentos colocados no mercado cresceu nessa proporção. É uma métrica de oferta qualificada, não de venda consumada.

O que o número realmente diz

Entre as capitais analisadas, Florianópolis registrou o maior salto no país, com variação positiva de 367% no VGV de lançamentos. Em relação às vendas, também se destacou com crescimento de 170% no VGV. E em número de unidades lançadas, a capital catarinense também liderou, com alta de 191%, além de registrar crescimento de 151% nas unidades vendidas. (Fonte: CRECI-SC · Agora Floripa · Out/2025)

Aqui está o dado que valida o número de VGV: as unidades vendidas cresceram 151% no mesmo período. Isso significa que o mercado não apenas lançou mais, comprou mais. Demanda e oferta se moveram juntas. Isso é diferente de um mercado onde só a incorporadora está otimista.

No primeiro trimestre de 2025 especificamente, foram 1.942 imóveis vendidos em Florianópolis, um salto de 97% em relação ao mesmo período de 2024. O VGV da capital atingiu R$ 1,6 bilhão no trimestre, crescimento de 67,2% na comparação anual, segundo dados do CRECI-SC. Nos lançamentos, 1.637 novas unidades chegaram ao mercado, representando alta de 36,3%. (Fonte: CRECI-SC · Modulare Empreendimentos · Ago/2025)

Isso, sim, é crescimento real: quase dois mil imóveis vendidos num único trimestre, com VGV de R$ 1,6 bilhão. São transações fechadas, não potencial.

O que o número não diz e precisa ser dito

Um crescimento de 367% em qualquer métrica exige uma pergunta obrigatória: comparado a quê?

O primeiro semestre de 2024 foi um período de retração relativa nos lançamentos de Florianópolis. A combinação de Selic elevada, crédito mais caro e cautela das incorporadoras resultou em volume de lançamentos abaixo da tendência histórica da cidade. Quando a base de comparação é baixa, qualquer recuperação gera percentuais que impressionam.

Isso não invalida o crescimento. Mas significa que 367% compara 2025 com um piso atipicamente baixo de 2024, não com a trajetória média histórica. Se a comparação fosse feita com 2022 ou 2023, o número seria menor. Ainda positivo, mas menor.

É a diferença entre "o mercado explodiu" e "o mercado se recuperou com força e acelerou além da recuperação." A segunda leitura é mais precisa e mais útil para quem toma decisão com base no dado.

O que sustenta o crescimento por baixo dos números

O que torna o crescimento de Floripa consistente, independente do efeito de base, são os fundamentos que não mudam de semestre para semestre.

O PIB de Santa Catarina cresceu 6,9% nos 12 meses encerrados em março de 2025, liderando o ranking nacional e quase dobrando a média brasileira de 3,5%. O estado mantém a menor taxa de desemprego do país, de 3%, e criou 74 mil empregos formais nos primeiros quatro meses de 2025. (Fonte: Modulare Empreendimentos · Ago/2025)

O crescimento do número de lançamentos é sustentado pelo otimismo apoiado no crescimento da população entre 35 e 40 anos e pelo encarecimento dos aluguéis, que subiram 63% nos últimos cinco anos, mais que o dobro da inflação oficial de 33% no período. Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica aponta que 49% dos brasileiros pretendem adquirir imóvel nos próximos 24 meses, maior índice desde 2020. (Fonte: ABRAINC · Brain Inteligência Estratégica · Portas · Out/2025)

Aluguel subindo 63% em cinco anos enquanto a inflação acumulou 33% cria uma pressão estrutural de compra: para uma fatia crescente da população, pagar financiamento começa a fazer mais sentido econômico do que continuar alugando. Isso não é fenômeno de Floripa, é nacional. Mas Floripa combina essa pressão com uma cidade que as pessoas querem morar, o que amplifica o efeito.

O alto padrão como motor do VGV

Existe uma especificidade no crescimento do VGV de Floripa que qualquer análise séria precisa mencionar: boa parte da expansão em valor veio do segmento de alto padrão, que tem ticket médio muito mais alto do que o mercado geral.

A região Sul reforçou em 2025 a tese de que o luxo concentra valor mesmo com participação limitada em volume. Os lançamentos cresceram de 701 para 1.244 unidades, enquanto o VGV lançado avançou de R$ 2,67 bilhões para R$ 5,38 bilhões, mais que dobrando em termos financeiros. O principal motor desse avanço foi Florianópolis, que registrou forte expansão nos lançamentos e consolidou o metro quadrado mais caro do Sul. (Fonte: Brain Inteligência Estratégica · Forbes Brasil · Dez/2025)

Traduzindo: o VGV cresce muito mais rápido do que o número de unidades porque os imóveis lançados são mais caros. Um empreendimento de R$ 5 milhões por unidade pesa muito mais no VGV do que dez apartamentos de R$ 500 mil cada. Quando Floripa lança empreendimentos como o Oceana Jurerê, com VGV de R$ 1 bilhão num único complexo, isso move o ponteiro do VGV de forma desproporcional ao volume físico.

Isso não é problema. É característica. Mas é importante entender: VGV alto em Floripa reflete, em parte, a ascensão do ticket médio, não apenas o volume de lançamentos.

O que o investidor deve fazer com esse dado

Um crescimento de 367% no VGV de lançamentos em Floripa em um semestre diz, com clareza, três coisas:

Primeiro, as incorporadoras estão confiantes. Empresas que lançam produto estão apostando dinheiro real na demanda futura. Quando esse volume cresce 191% em unidades e 367% em valor, é porque o setor enxerga absorção.

Segundo, o mercado está comprando. VGV de vendas cresceu 170% no mesmo período. A demanda respondeu à oferta, o que distingue crescimento real de exuberância.

Terceiro, os fundamentos são sólidos mas os números percentuais devem ser lidos com cautela. Crescimento de três dígitos numa comparação anual, especialmente quando a base do ano anterior foi baixa, é normal em mercados em retomada. O dado impressiona mas o argumento de compra não precisa dele para ser forte. Floripa tem fundamentos suficientes para se sustentar sem precisar de percentuais inflacionados pela base de comparação.

Uma observação honesta

Mercados aquecidos criam otimismo e otimismo excessivo cria bolhas. Florianópolis tem características estruturais que protegem contra bolha: escassez geográfica real, demanda diversificada, economia local robusta e qualidade de vida difícil de replicar. Mas nenhum mercado é imune a ciclos.

Consistente e sustentável é o adjetivo que importa. Não 367%.

O número é a manchete. Os fundamentos são a história. E a história de Floripa em 2025 é mais sólida do que qualquer manchete consegue resumir.

Se você quer entender o que está por baixo dos números e como eles se aplicam ao que está avaliando, ser[a um prazer conversar com você.

Cristian Thume — Corretor de Imóveis em Florianópolis CRECI/SC 74.589-F · @cristian.thume · cristianthume.com.br · WhatsApp: (48) 99154-5904

"O verdadeiro luxo é viver bem."

Fontes citadas: ABRAINC · GeoBrain · Agora Floripa · CRECI-SC · Brain Inteligência Estratégica · Forbes Brasil · Portas · Modulare Empreendimentos

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